Americanos viajam ao Iraque
"Sua visita muda tudo!"
por Kristine Swenson
Eles souberam que chegaríamos na véspera. Viajamos através do país em estradas de terra, apreciando a beleza dos campos e tamareiras pelas janelas do ônibus, escoltados por veículos carregando soldados e funcionários do govêrno. Quando entramos na vila, faces curiosas se voltaram para nós, seguindo-nos com seus olhares inexpressivos e seus corpos.
Mark e eu descemos do ônibus envolvidos por uma multidão de habitantes da vila. No centro estava Falah, um homem confiante de 33 anos e olhar bondoso. Ele nos convidou a seguí-lo através de um bosque de tamareiras numa trilha de terra bem batida até um pátio cercado de paredes brancas de tijolos de barro. O pátio estava vazio exceto por sua mãe do outro lado. Ela trajava longas vestes negras e só seus olhos apareciam, ora nos fitando, ora se desviando. A pequena multidão que nos envolvia dela se aproximou. Eram 18 membros da delegação dos Estados Unidos, o secretário do governador local, membros do Ministério do Exterior, um destacamento de soldados e uma amostra considerável dos habitantes locais. Falah saiu pela porta da sua casa carregando um grande retrato emoldurado do seu irmão caçula e se postou perto de sua mãe em silêncio. Eu chorei.
Nós nos apresentamos como amigos. Dissemos que tínhamos ouvido a notícia da sua grande perda e vínhamos apresentar as nossas condolências e falar-lhes de um movimento crescente nos Estados Unidos. Um pequeno grupo de pessoas viajando num ônibus escolar estava indo da California para Nova Yorque, contando a milhares de pessoas em igrejas, escolas e universidades sobre a situação do seu país, em memória do seu filho e irmão. Elas haviam coletado mais de 100 quilos de suprimentos para essa vila, junto com mensagens de paz. Falah enxugou as lágrimas, deu um grande suspiro olhando as fotos de lembrança de uma escursão de ônibus de Omram.<
Mark e eu fomos convidados a entrar na casa de um só cômodo, às escuras nesse dia por interrupção do fornecimento de energia elétrica, para conhecer os demais membros da família. Todos trajavam negro em sinal de luto. Era uma grande família: conhecemos pelo menos nove irmãos, alguns tios e primos, enquanto uma jovem amamentava um bebê e brincava com outro que ensaiava os primeiros passos num canto do cômodo. Eles nos contaram sua história.
Em 17 de maio de 2000 oito meninos estavam colhendo arroz num campo perto da vila. Um velho tratorzinho gradeava o solo nas proximidades afofando a terra e atraindo um bando de carneiros que seguia o seu rastro. Dois meninos estavam encarregados de tangê-los de volta para o outro lado do campo. Esse era o seu mundo: o campo, os carneiros, o arroz e os amigos. Às 11 horas da manhã tudo mudou. Uma bomba foi lançada de um avião americano em cima deles. Omram, irmão de Falah com 13 anos de idade, olhava o local do impacto a poucos metros de distância. Morreu instantaneamente. Os estilhaços atingiram 5 dos seus amigos. Dois deles não se lembram de nada além de acordarem num hospital horas mais tarde. Trinta carneiros foram mortos.
Oito meses mais tarde, na casa de Omram, pudemos ver as cicatrizes nas pernas de um menino de uns 12 anos que foi ferido no mesmo dia. Olhei a sua face e fiquei imaginando as imagens que podiam correr pela sua cabeça ao se lembrar daquele dia. Olhei os rostos dos seus familiares e imaginei o que estariam pensando ao receberem dois americanos em sua casa.
Pedimos para falar com a mãe de Omram e uma jovem puxou um colchão de palha e travesseiros de uma prateleira para nos sentarmos no chão. Os três nos encaramos uns aos outros com uma foto de Omram no chão na nossa frente. Sua mãe colocou a mão sobre o coração e explicou que desde a morte de Omram seu coração estava cheio de dor e ela não conseguia falar. Pegou então uma foto de Omram, beijou-a e nos deu para que a guardássemos. Era a sua única foto do filho Omram Harbi Jawair, um pastorzinho de treze anos morto em maio passado quando aviões americanos bombardearam o seu rebanho de carneiros ao sul da zona de não sobrevôo do Iraque.
Falah entrou no cômodo, agradecendo pelos presentes que levamos, mas nos lembrou que os presentes, junto com toda a administração dos Estados Unidos não valiam nem mesmo o dedo mindinho da mão de Omram. Entre lágrimas fizemos que sim com a cabeça. Ele continuou dizendo que não queria que nós dois sentíssemos o peso da responsabilidade pelo terrível crime cometido pelo nosso governo, ou pelo piloto do avião militar. Antes da nossa visita, os únicos ocidentais que eles tinham conhecido eram jornalistas do Washington Post duas semanas depois da morte de Omram. Nos disse que os habitantes da vila nunca tinham visto americanos e que eles não sabiam que nós tínhamos emoções. E disse: "Sua visita de hoje muda tudo".
Quando saimos da casa escura para o pátio a multidão do lado de fora subitamente começou a apontar para o céu. Pude ouvir o rumor distante e meus olhos conseguiram distinguir o contorno de um avião de guerra americano que nos sobrevoava. Nos contaram que isso acontecia todos os dias.
Mark e eu seguimos uns doze homens e meninos da vila através de uma ponte estreita sobre um canal de irrigação e uns 500 metros adiante para dentro do campo, agora plantado com cevada. Eles apontaram o local exato onde a bomba caiu, dizendo que não havia vestígios porque os estilhaços haviam sido enterrados com o solo recém gradeado. No campo pudemos ver outro rebanho de carneiros tangido por um grupo de meninos. Falah e os outros disseram que o mesmo campo foi, novamente, bombardeado poucas semanas depois da morte de Omram e gesticularam mostrando os campos vizinhos, acrescentando que as bombas continuaram a cair, periodicamente, sobre a área. Em uma vila vizinha dois pais e seis crianças morreram ao atravessar uma estrada.
Mark se ajoelhou no local onde a bomba caiu e começou a coletar terra para encher uma lata vazia de filme. Imediatamente um soldado e um menino, este mais ou menos da mesma idade de Omram, se ajoelharam para ajudar Mark a encher a lata. Pareceu-me que o menino estava rindo, até que eu vi seu rosto. Ele chorava.
Enquanto caminhávamos de volta para a vila, olhando para trás para os campos verdes, era óbvio que não havia alvos militares nem baterias antiaéreas nesse lugar. Os aviões de reconhecimento têm tecnologia para distinguir uma cabra de uma pessoa a 50 quilômetros de distância (sic). Esse lugar não era uma ameaça. Essas pessoas não eram nossos inimigos. Essa tragédia não foi um acidente.
Deixando a vila, me dei conta do impacto da mensagem de Falah: "Sua visita muda tudo". Seu mundo mudou para sempre e o meu também.
Kristine Swenson é uma estudante da universidade de Seattle que foi uma delegada em uma viagem ao Iraque patrocinada pela Organização Consciência Internacional em janeiro de 2001. Para mais informação visite o site da Middle East Children's Alliance.