O que se segue é uma tradução livre da carta que Ramsey Clark, ex-Procurador Geral da República dos Estados Unidos da América, enviou ao Conselho de Segurança das Nações Unidas em fevereiro de 2001.
 

Ref. Ação do Conselho de Segurança no sentido de cessarem todas as sanções contra o Iraque e proibir os Estados Unidos e o Reino Unido de bombardearem o Iraque.
 

Senhores membros do Conselho de Segurança,

Continua o genocídio no Iraque causado pelas sanções do Conselho de Segurança forçadas pelos Estados Unidos e pelos bombardeios sobre o Iraque por aviões e mísseis dos Estados Unidos. Uma pesquisa a nível nacional feita por 50 cidadãos americanos no Iraque, na minha décima primeira visita ao Iraque desde que as sanções foram impostas em 6 de agosto de 1990, confirma que as mortes causadas pelas sanções aumentaram pelo décimo ano consecutivo, embora a taxa de aumento tenha caído. As condições gerais de saúde continuam a piorar, embora a disponibilidade de alimentos e medicamentos tenha aumentado ligeiramente. Aparentemente isso se deve aos efeitos cumulativos de uma década inteira de privações.

Outra preocupação com saúde inclui as crescentes taxas de aumento de câncer, maior entre os jovens, que o povo do Iraque e os profissionais do sistema de saúde acreditam serem conseqüência do urânio esgotado de quase 1 milhão de bombas de DU (depleted uranium) lançadas sobre o Iraque pelos Estados Unidos nos primeiros meses de 1991 e o provável uso dessas bombas de DU desde então. Entre os muitos exemplos que encontramos dessa preocupação estão as declarações que me fez o Arcebispo da Igreja Católica de Basra, Monsenhor Djibrael Kassab, de que a pequena população católica da sua diocese testemunhou recentemente três nascimentos de bebês com deformidades nunca antes vistas, incluindo a ausência de feições faciais e de olhos, o que foi reportado ao Vaticano.

Os sobrevôos constantes com ataques aéreos contra o Iraque têm continuado, compreendendo vários ataques por semana com mortos e feridos quase todas as semanas.
 

Efeito genocida das Sanções sobre o Iraque até 20 de janeiro de 2001.

A mortalidade infantil por algumas doenças causadas pelas sanções das Nações Unidas contra o Iraque aumentou de uma média  mensal ligeiramente menor do que 600 mortes em 1989 para mais de 6700 em 2000, ou seja 11 vêzes. A percentagem do registro total de nascimentos abaixo de 2,5 kg em 1990 era de 4,5%.. Em 2000 foi de quase 25% , 5 vêzes maior. Para crianças com menos de 5 anos o número médio de kwashiorkor,  marasmus e outras doenças de desnutrição causadas por deficiências de proteínas, calorias e/ou vitaminas cresceu de menos de 8550 em 1990 para 190.000 em 2000, um aumento de mais de 22 vêzes.

As sanções precisam ser completamente eliminadas imediatamente. A cada dia elas continuam a aumentar a lista de mortes do pior genocídio da última década do céculo mais violento da história da humanidade.

Os Estados Unidos,  percebendo que a opinião pública não vai mais tolerar as sanções, estáo procurando receber os créditos por modificá-las, enquanto o seu propósito é continuar a controlar a sua implementação e causar o seu re-endurecimento por supostas violações por parte do Iraque. Sob o pretexto de inspeções de armas e falsas alegações de violações de armas, os Estados Unidos têm, sistematicamente, frustrado quaisquer tentativas de afrouxamento das sanções. Os Estados Unidos têm alegado (e falhado em provar) uma longa série de violações pelo Iraque, incuindo falsas alegações de que o Iraque estaria escondendo alimentos e medicamentos do seu próprio povo, enquanto que, na verdade, o sistema iraquiano de distribuição e racionamento tem salvo o seu povo. Eu tenho denunciado, repetidamente, essas mentiras dos Estados Unidos ao Conselho de Segurança desde que o programa comida-por-óleo foi iniciado. Apoiado pela recusa do Comitê de Sanções em aprovar contratos pelo Iraque para a compra de medicamentos de urgência, alimentos e equipamentos, os Estados Unidos têm conseguido impedir o afrouxamento das sanções e vai continuar a assim agir se as mesmas não forem completamente eliminadas.
 

Ataques Aéreos Criminosos ao Iraque

Os Estados Unidos têm atacado o Iraque com bombardeios aéreos e mísseis cruise impunemente desde o cessar fogo em fevereiro de 1991. Na semana que antecedeu a cerimônia de posse de Bill Clinton como presidente dos Estados Unidos em 20 de janeiro de 1993, o presidente George Bush (pai) autorizou uma violenta campanha de bombardeios. O presidente Clinton continuou os ataques aéreos e bombardeios em 21 de janeiro de 1993 e durante os 8 anos de sua permanência na presidência. Na ocasião um grande número de mísseis cruise foi disparado atingindo, entre muitas instalações civís, o hotel Al Rashid em Bagdad e a casa da mais famosa pintora e diretora do Museu de Arte Moderna, Leyla al Attar. Dentre os milhares de sobrevôos e centenas de violentos ataques aéreos sobre o indefeso povo do Iraque incluindo os passageiros de um helicóptero das Nações Unidas, os Estados Unidos não sofreram nenhuma baixa. Ainda assim, os Estados Unidos têm insistido em que têm que atacar e matar os iraquianos para proteger os seus aviões, os quais não têm o direito de sobrevoar o Iraque, ainda que nenhum avião dos estados Unidos tenha sido atingido.

Os aviões americanos, ocasionalmente apoiados por aviões do Reino Unido, que atacam alvos no iraque estão cometendo violência criminosa e crimes contra a paz. Aqueles que ordenam os vôos e ataques e os pilotos que executam as ordens cometem atos criminosos que têm causado a morte de centenas de pessoas.

O Conselho de Segurança tem sido conivente com esses atos criminosos sob pressão dos Estados Unidos e, tragicamente, tem aprovado as sanções genocidas contra o Iraque. Ele tem ignorado outros ataques ilegais dos Estados Unidos, incluindo os ataques de surpresa sobre Trípoli e Benghazi, Líbia, em abril de 1986, que mataram centenas de civís e os ataque de 20 mísseis cruise à indústria farmacêutica Al Shifa em Khartoum, Sudão, em agosto de 1998 que provia 50%  dos medicamentos disponíveis para o povo do Sudão. Nada poderia ser mais perigoso para a paz mundial.

A nova administração dos Estados Unidos continua a realizar ataques aéreos criminosos ao Iraque e ameaça aumentá-los como alternativa às sanções que parecem ter falhado.

O Conselho de Segurança precisa proclamar os ataques ao Iraque como  criminosos que eles são e exigir a sua suspensão.

A raiva crescente e generalizada contra as sanções genocidas e os ataque criminosos ao Iraque vai se transformar em ódio, violência e guerra, a menos que terminem. O propósito primordial das Nações Unidas é impedir o desenvolvimento desse embrião de guerra.

Ramsey Clark volta