Publicado em 6 de agosto de 2000 no Sunday Independent (Irlanda)

Hiroshima silenciosa extermina as crianças de uma nação

por Felicity Arbuthnot
 

Hoje, dia de Hiroshima, é o décimo aniversário da imposição das sanções das Nações Unidas sobre o Iraque.

O mais draconiano embargo jamais imposto tem como resultado uma Hiroshima silenciosa para a população do Iraque, um terço da qual tem menos do que 15 anos de idade. When Martti Ahtisaari, na época Repórter Especial das Nações Unidas, visitou o Iraque imediatamente após a guerra do Golfo em 1991 ele disse: " Nada do que tínhamos visto antes poderia ter nos preparado para aquela devastação - um país reduzido à era pré-industrial por um considerável período de tempo pela frente."

Desde então, o país tem regredido do impossível para o apocalítico e mais de 6000 crianças por mês - o equivalente à população de uma vila irlandesa - morrem de causas relacionadas com o embargo.

Setenta por cento de virtualmente tudo era importado. Com a imposição do embargo, o Iraque tem enfrentado a exterminação.

Anteriormente um país bastante desenvolvido com amplo acesso a um sistema de saúde de alta qualidade, 93% de acesso a água limpa e um sistema educacional gratuito exemplar (de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde de 1989), a infraestrutura se desmontou. Com ela, a saúde, a educação e o direito à vida na carta das Nações Unidas com mais assinaturas da história, que garantia a proteção e assistência às crianças do mundo. Essa jaz na poeira. As crianças do Iraque estão na linha de frente das Nações Unidas.

Basra, a antiga capital do sul do Iraque, onde os rios bíblicos Tigre e Eufrates se encontram em Shat Al Arab, talvez resuma a difícil situação do Iraque. No hospital pediátrico e maternidade, antiga e exemplar instituição, um dos mais sofisticados centros do Oriente Médio, o ar condicionado não mais funciona em temperaturas de até 140 F, não há água quente, os elevadores estão quebrados e o cheiro de sangue é avassalador. Os desinfetantes são vetados pelo Comitê de Sanções das Nações Unidas. Um terço de todos os recém nascidos vivos tem peso de prematuros, em virtude de má nutrição. No hospital onde a falta de equipamento inclui incubadoras, nenhum bebê prematuro sobreviveu desde 1994.

A realidade é dura e vergonhosa. Em junho do ano passado, na unidade de prematuros, estavam 17 pinguinhos de gente perfeitos incluindo gêmeos. O doutor tinha que decidir qual dentre eles teria o único cilindro de oxigênio funcionando (o oxigênio central se foi há muito tempo). Um doutor perguntou francamente se eu ou o fotógrafo que trabalhava comigo tinhamos um certo tipo de sangue - um dos bebês precisava de uma transfusão. O banco de sangue não mais existia e eles não conseguiam localizar um doador. "Teste-nos", respondemos. Mas os equipamentos do laboratório já não existiam.

Já que o sistema de eletricidade de Basra também já não existia havia anos esses equipamentos não teriam mesmo utilidade. Refrigeração é uma lembrança em um dos paises mais quentes da Terra.

Quando voltei em outubro todas as crianças que tinha visto em junho tinham morrido. Basra tem uma herança estremecedora: uma terrível epidemia de câncer ligada às armas de urânio esgotado (depleted uranium, DU) usadas na guerra do Golfo. O DU é um lixo radiativo dado de graça pela indústria nuclear à indústria bélica. Como revestimento ou enchimento de bombas e mísseis ele oferece uma blindagem eficiente e de alta penetração. A poeira residual gerada no impacto tem sido associada à síndrome da guerra do golfo e à crescente incidência de câncer e deformidades de nascimento.

No Iraque o lençol freático, a flora, a fauna, dizem os peritos, estão contaminados com DU. As deformidades de nascimento em Basra imitam as das ilhas do Pacífico depois dos testes nucleares dos anos 50. Bebês nascem sem olhos, sem cérebro, sem membros, com membros atrofiados, com pequenos membros retorcidos de cortar o coração, com as vísceras de fora do abdome.

O Professor Doug Rokke, um perito em radiação consultor do Pentágono que previu a limpeza de DU para o Kwait, inspecionou os níveis de radiação de Basra e declarou ao Sunday Independent: "Posso resumir para vocês em três palavras o que eu vi lá: Oh, meu Deus!"

O Iraque solicitou repetidamente o envio de peritos para supervisionarem a limpeza mas essa foi recusada. O Iraque é um país envenenado cujas crianças estão morrendo, não com uma explosão, mas com um gemido.

Enquanto isso a guerra esquecida continua. Quase diariamente os aviões dos Estados Unidos e do Reino Unido bombardeiam - em nome dos "céus seguros"  - a região de Basra no sul e Mosul no norte.

Um médico exausto confidenciou: "Eu já consigo lidar com as cirurgias sem anestésicos e com os pacientes morrendo por falta de medicamentos. Mas ainda não consigo lidar com os bombardeios. Eu juro pra você que eu ouço os gritos de todas as crianças em todas as casas em todas as ruas das vizinhanças."

A jornalista Felicity Arbuthnot visitou o Iraque 22 vezes desde a guerra do Golfo e foi pesquisadora no Iraque para o premiado filme de John Pilger: Pagando o Preço - A matança das Crianças do Iraque exibido no início desse ano. Ela foi indicada para o Prêmio Lorenzo Natali pelo Jornalismo de Direitos Humanos e para o Prêmio Paz do Milênio para Mulheres.

 

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